ehreditario

a menina e o lobo

A menina brincava de roda quando ouviu o amor chamar
Correu até à árvore de onde a voz partiu e viu que era um lobo
Fugiu deixando uma estrela e um colar

A menina brincava de corda quando ouviu o amor chamando
Encontrou o vento de onde a voz partiu e viu que era um lobo
Fugiu deixando três cadernos e lírios brancos

A menina brincava de laço quando ouviu o amor chamar
Pensou que era o lobo
e não se moveu

Seria feliz se soubesse que o lobo tinha sido morto
pela mão de um caçador que estava apaixonado
por uma estrela, lírios, três cadernos e um colar

Ehre  

eu-sem-poesia

criação

Estava tão conivente com o cubo
que me encubei numa tarde molhada.
Encubada, teria mais tempo pra mim.
Já não cabia a ideia solta, descentrada.
Previ a cabeça enquadrada.
Liguei com o olhar os pontos dos cantos
com linhas retas raciocinadas.
Teci por horas a fio,
E vi-me de cubos ao cubo cercada.
Até que, em negro ponto, senti-me.
Sou energia, contida, concentrada.

Estou à espera do big-bang.

Rita Brennand

RESTIS

Um vento anima os panos e as cortinas oscilam,

fronhas de linho (sono) áspero quebradiço; o sol passeia

a casa (o rosto adormecido), e em velatura a luz

vai desenhando as coisas: tranças brancas no espelho,

relógios deslustrados, cascas apodrecendo em seus volteios

curvos, vidros ao rés do chão reverberando, réstias.

Filamentos dourados unem o alto e o baixo  

– horizonte invisível, abraço em leito alvo:

velame de outros corpos na memória amorosa.

Josely Vianna Baptista

RIVUS

A água mede o tempo em reflexos vítreos. Mudez

de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos suspensos

numa casa barroca), e em presença de ausências o tempo

se distende. Uns seios de perfil, sono embalando

a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva. 

No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;

sombras que se insinuam, a matéria mental.

Josely Vianna Baptista

Chamar a si todo o céu com um sorriso

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso


e.e. cummings, in livrodepoemas