eu-sem-poesia
Quanta é a verdade que um espírito suporta, quanta é a verdade que ele ousa? Essa foi pra mim, e cada vez mais, a tábua para medir valores. Engano - a crença no ideal - não é cegueira, engano é covardia… Toda a conquista, todo o passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza em relação a si mesmo, da decência consigo mesmo… Eu não refuto os ideais, eu apenas visto luvas diante deles…
Friedrich Nietzsche; in Ecce Homo
palaciodoexilio
É preciso ter a coragem de reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir um sentido ao que visivelmente não comporta um. Por outro lado, nem que seja por gosto do paradoxo, podemos ser seduzidos por esse naufrágio, pela amplidão, pelo brilho do nada de tudo o que vive.
Emil Cioran, in Silogismos da Amargura

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.


Fernando Pessoa; in Cancioneiro

biblioteca-decitacoes
Há criaturas que chegam aos cinqüenta anos sem nunca passar dos quinze, tão símplices, tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepúsculo é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das flores; vêm ao mundo com a ruga da reflexão no espírito, - embora, sem prejuízo do sentimento, que nelas vive e influi, mas não domina. Nestas o coração nasce enfreado; trota largo, vai a passo ou galopa, como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde, nem perde o cavaleiro.
Machado de Assis; in A Mão e a Luva 
Na dúvida, faça.
O risco faz parte.
A graça está em tentar,
em vez de sentar e assistir;
a vida está em esticar-se todo para atingir;
o mundo está
no desafio da interrogação.
E por que não?
Entre na festa,
Arranque a capa, morda a maçã.
Desate o cinto
Para voar livre pelo amanhã,
Ainda que ele seja um labirinto.
Deixe o id rolar
Cônscio e devoto.
Nessa arte viva de arriscar,
Pois que viver
Não é entrar no mar onde dá pé
Mas mergulhar com fé no maremoto.
Flora Figueiredo
Guardo-vos manhãs de terracota e azul
Quando o meu peito tingido de vermelho
Vivia a dissolvência da paixão.
O capim calcinado das queimadas
Tinha o cheiro da vida, e os atalhos
Estreitos tinham tudo a ver com o desmedido
E as águas do universo se faziam parcas
Para afogar meu verso. Guardo-vos, Iluminadas
Recendentes manhãs tão irreais no hoje
Como fazer nascer girassóis do topázio
E dos rubis, romãs.
Hilda Hilst; in Amavisse
Assim, para fora
da minha verdade-loucura
eu mergulhei,
para fora
da minha nostalgia pelo dia,
- cansado do dia, doente da luz,
mergulhei para o fundo,
para a noite,
para a sombra,
- queimado pela verdade,
e sedento:
Tu te lembras ainda
- te lembras, coração ardente -
de como tinhas sede?
Que eu seja exilado
de toda a verdade,
somente um tolo!
Somente um poeta!
Friedrich Nietzsche; in Assim falou Zaratustra
eu-sem-poesia
[…] Mudei-me da casa dos eruditos e até mesmo bati a porta atrás de mim. Minha alma se assentou faminta por muito tempo à sua mesa; eu não sou, como eles, treinado a buscar o conhecimento ao estilo de quebrar nozes. Amo a liberdade e o ar sobre a terra fresca; eu preferiria dormir em estábulos a dormir em suas etiquetas e respeitabilidades. […]
Friedrich Nietzsche; in Assim Falou Zaratustra
cometacavalo

alguém por gentileza libere a liberdade das grades. soltem-na da estátua da linguagem. se prazer é relâmpago liberdade também. cinese ou estase? com prudência se alcança? me alcança a liberdade? tem perguntas que morrem sem respostas. conceitos velhos reciclando-se e engolfando o além do ciclo. a liberdade não passa de uma gaiola maior. ou de alguém que saiba usar com maestria o sim e o não sinceros. alguém de louvável silêncio cognitivo. de jugular leve sem o precisar do julgamento. alguém que já tenha esquecido o hábito de reclamar e esteja prestes a declamar a flor da pele. este alguém solte por favor a nós, a liberdade daquilo que ela já era.  por amor a nós. estamos aqui pessoas livres em certo sentido. erradas talvez. se não fosse nossa condição de paradoxo ambulante, fascinados com o delírio show dos seis sentidos, esse alguém já teria nascido em nós. teria sido tudo aquilo que nunca foi embora: o nascedouro atemporal de onde sai criado qualquer conceito de liberdade.